Quarta-feira, Abril 12, 2006



PRECIPÍCIO

Tinha um buraco gigante se abrindo. O medo de cair precipício a dentro e se estabacar no dolorido infinito apavorava as certezas e escorria uma lágrima frágil de seu olhar. Hibernar o pranto, estampar sorrisos feridos e manter-se firme. "Como?", pensava acompanhando as rachaduras crescendo na sua direção.

O inevitável aconteceu. O chão foi tirado dela, rasteiro e rápido, num susto sem direito a perdão. Por um segundo pensou cair. No fundo do último bolso tirou o resto de fé esfarelado, fechou os olhos e acreditou:

- Se o mundo abrir aos meus pés, eu que aprenda a levitar! - Levitou.

Me pergunto até quando vou aguentar essa montanha russa de incertezas e essa minha sina otimista de achar soluções nem sempre possíveis. Me pergunto até quando esse medo de seguir em frente e essa solidão de levitar sozinha dominarão meus dias e deixarão rasos e apáticos os meus risos outrora fartos.

Talvez seja melhor aceitar o precipício e cair de vez para acabar com a ilusão de que algum dia um terei de volta minha caixa de felicidade. Por isso, se desaparecer uns tempos é porque estou em queda livre, rumo a lugar nenhum, desaprendendo a levitar e jogando fora as migalhas de fé que voam por mim.

Beijo no coração
Louise

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Segunda-feira, Janeiro 16, 2006



BLEFE

Era tão óbvio que chegava a irritar a inteligência ter passado na cabeça dela a possibilidade de ser real. Talvez sua vontade de aconchego tivesse embriagado o senso prático e o instinto envolveu seus olhos dentro do coração. Se deixou levar.

O charme, o humor refinado, a sedução e o convite para jantar feitos de maneira tão palpável que verdadeiramente acreditou nas possibilidades de um sorriso sincero domando sua rebeldia e acalmando o instinto feroz.

Na dúvida, perguntou a lua o que fazer. Mandou prosseguir. Foi. Cruzou a linha de risco e pulou. Só não sabia que ela estava comprada por ele com respostas exatas e evaporadas na luz do amanhecer.

Seria tão bom se nem tudo fosse descartável, se as possibilidades reais acontecessem intensamente e os jogos blefados fossem banidos dos cassinos sentimentais.

Fico pensando por que homens ainda agem como meninos e por que mulheres ainda esperam o inatingível? Se alguém souber, me conta!

Beijos no coração
Louise

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Sábado, Dezembro 31, 2005



A COR

O carro parou no sinal e de longe ele pediu uma esmola. Tinha o rosto árido dos moradores de rua que apesar da lida castigada, ainda sabem sorrir. Esticou a mão com gentileza e não ficou bravo com a negativa dela. O rosto tenso, a ruga franzindo a testa, a pressa que nunca a deixava observar outros olhares. Ele foi categórico:
- Moça, a Sra está preocupada né? - ela deu um riso amarelo de quem não tava a fim de papo, mas o sinal continuava fechado e o homem continuava ali, na calçada, sentado, olhando dentro de sua alma.
- Olha, não fique triste não. Seja lá o que aconteceu tudo tem jeito na vida e eu acho que a Sra fica melhor se plantar um sorriso na boca.
"Só me faltava essa!" , pensou irritada. " filosofia barata no meio do sinal é tudo que não preciso hoje". "Maldito ar condicionado que me deixou o vidro aberto!", praguejava mentalmente.
- Ô moça....eu não conheço muito bem as palavras mas tem dias que a barriga dói de fome e outros que o vento frio congela meus ossos e nunca deixo meu riso se perder nas latas de lixo por onde cato esperança. É a única coisa que tenho de valor. A fé de que ainda vou vencer nessa vida.

E de repente a atenção dela estava voltada para aquele homem imundo, catador de lixo, pedinde de sinal, morador de rua e sorridente apesar de tudo. Colocou a mão na bolsa e pegou uma nota para entregar. O homem balançou a cabeça fazendo que não.
- Precisa não, Moça. Vai com Deus e não esquece de colocar o sorriso no rosto todos os dias porque seja lá o que estiver fazendo a Sra triste, uma hora vai melhorar.

O sinal abriu e o carro seguiu. Olhou pelo retrovisor e avistou na sombra a mulher de cadeira de rodas muito doente ao lado do homem. Sentiu um remorso gigante por não perceber o detalhe. Fazia isso com frequência. Trancanda em seu mundo de portas lacradas não percebia nada, nem mesmo a carranca endurecendo na face. E tudo que antes enrrugava a testa se desfez, ali, naquele sinal, na filosofia barata do homem de rua ela enxergou uma cor que tinha esquecido existir. O verde esperança!

Um novo ano vem chegando. Outro calendário para virarmos a folhinha e no final exclamarmos: Nossa, como passou rápido!.
Desejo de coração que a singularidade da vida se transforme em felicidades plurais e que os desejos de paz não sejam apenas utopia de poetas e pacifistas. Que o mundo acorde mais justo e menos violento na próxima semana e que todos, absolutamente todos que sobrevivem diariamente suas dificuldades, plantem um sorriso esperança no meio da cara e encarem 2006 do jeito como deve ser. Feliz!

Um beijo no coração
Louise

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Quinta-feira, Dezembro 15, 2005



SERPENTE

Era assim desde sempre. Articulava na cabeça todos os detalhes para enredar na trama diabólica os imunes sentimentos que ele nutria por ela. Ele e qualquer outro que atravesasse seu caminho de coração vazio.

Pisava, escamoteava, confundia, driblava, esmagava e quando então ele tonteava no chão, aproximava a boca nos lábios e ½ dúzia de palavras gentis eram ditas com olhar angelical. O suficiente para qualquer marmanjo perder o rumo das pernas e enfeitiçar o juízo.

"Cheque mate!",pensava toda vez que suas vontades eram induzidas a concretizar a iniciativa dele.

Precisava de férias e de uma viagem que esquentasse o corpo e a alma. Jogou a isca, brigou, sumiu uns tempos, telefonou e fez às vezes de viúva abandonada quando na verdade era quase dona de um bordel. Ele mordeu saudoso. Ela preparava o bote.

Não sei se aplaudo o jeito ardiloso que tem de seduzir os sentidos ou se atiro um tomate no meio das fuças para enxergar que manipulada é ela por essa mania covarde de jogar com os sentimentos masculinos.

"Maquiavélica!", grito enquanto ela ri dizendo que deveria praticar a arte de envenenar as veias alheias sem machucar o próprio sangue. Será? Tenho minhas dúvidas se algum dia não será ela mordida pela serpente voraz.

Beijo no coração
Louise


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Quarta-feira, Dezembro 07, 2005



BILHETE

Comprou o bilhete de ida para lugar qualquer num impulso. Rompante, como dizia a mãe. Tinha mania de falar essa palavra irritante. "Você e seus rompantes" alfinetava sempre que suas opiniões rebelavam os estatutos de "Amélia". Nada contra elas porque felicidade independe de codinomes, mas Joana D´Arc provavelmente seria o seu.

Rasgou a pilha de cartas, limpou a caixa de e-mails e esvaziou o coração dos sentimentalismos urbanos certa da escolha feita. "Não pertenço a esse mundo" pensava a cada olhar na direção da felicidade simplória das irmães e suas vidas entrelaçadas por companheiros maravilhosos. Filhos, casas, cachorros e papagaios. Eram felizes. Verdadeiramente felizes em seus lares construídos e sonhos partilhados sem a fome de mundo que mastigava o estômago e a fazia diferente delas.

"Talvez isso não seja para mim." consolava o coração dolorido de noites solitárias. " O pacote nunca vem completo" pensava enquanto jogava meia dúzia de roupas na mochila e tentava convencer que seus defeitos superavam as qualidades.

"Estou fugindo!" caiu em si.

Lacrou o quarto e os pertences. Trancou a porta. Suspirou uma lágrima. Inchou os olhos a viagem inteira. Deixava para trás a bagagem de sonhos fechada e a certeza de solidão agonizando até morrer. Queria uma vida nova palpitando seus olhos e enchendo de memórias a sua velhice, ainda que fosse para ser sua única companhia no vai e vem da cadeira de balanço.

- O bilhete, por favor. - pediram no embarque. Entregou sem olhar para trás, sem dizer adeus, sem aviso prévio. Um rompante de coragem para mudar o curso da estória e tentar escrever "final feliz" na página em branco.

Talvez um dia eu faça como ela....e num rompante assuma os riscos de mudar o destino e arrancar as raizes que me aprissionam dentro mim.

Beijo no coração
Louise

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Sexta-feira, Novembro 25, 2005



ERA UMA VEZ

Então numa noite, 25 de novembro, os bruxos mais sábios juntos com fadas, duendes e guardiões do céu, sopraram para longe o vento do norte e o caldeirão borbulhou diferente. Dentro dele saiu uma riqueza de gente pequena, frágil, indefesa e guerreira como seus ancestrais.

O pequeno Bruxinho ainda não sabe voar, mas dizem que ele tem asas escondidas e na verdade é um anjo que papai do céu mandou para enfeitiçar as pessoas com a porção mágica dos sonhos.

Milagre, feitiço, bênção, encanto, seja lá o nome que tiver, uma coisa é certa:

Se o coração acredita, não importa ser bruxo ou lagartixa; gente ou borboleta. Os sonhos, até mesmo os impossíveis pela imaginação, acontecem de verdade, bem debaixo do nosso nariz!

Hoje, quando o relógio volta 365 dias para trás e o riso de gengiva se abre na frente dos olhos, a saudade de quem foi apitar partidas de futebol lá na África do Céu, e de quem foi junto acompanhar o jogo, se transforma em alegria porque afinal de contas a família é de Bruxos e só mesmo feitiço de Amor para escrever essa estória.

ps: Para irmã Bruxa com amor ....

Beijo no coração
Louise



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Quinta-feira, Novembro 17, 2005



ENCRENCA

O sinal estava ali, piscando luminoso, aceso na frente dela feito neon de bordel. "Encrenca", diziam as letras acompanhadas pelo zumbido da voz no ouvido. Mas as vezes se permitia ser surda, cega, silenciosamente muda.

O dia passaria manso não fosse o pensamento desatento e fixo no horário de partida do último ônibus. O sol do feriado destemperava os miolos e a voz dele pedindo sua presença por perto num tom de saudade tão verdadeiro, descontrolava a razão. Não pensava mais em riscos, abismos, conseqüências ou machucados. Queria ir, essa era a verdade. Curiosidade, provocação, falta do juízo, carinho, ternura, amizade, tesão e uma lista de motivos impublicáveis justificavam o seu querer.Simples vontade de sorrir.

Sentaria na orla em algum bar com seu vestido de tecido leve flutuando o corpo moreno e quando ligasse, a surpresa estaria feita. Ao invés de vozes, olhares, toques, abraços, cheiros e saudades materializados e lançados a beira mar em fôlegos afoitos de desejos.

Correu para rodoviária, bilhete quase rasgando no suor das dedos, bolsa caindo dos ombros, coração palpitando de ansiedade e de repente uma lágrima escapou discreta. O último ônibus deixava a estação e não haveria amanhã nem mais tarde. Aquela era a única e urgente oportunidade para encontrá-lo.

Por uma fração de segundo ela apagou o letreiro e depois ficou ali, observando a sorte escorrer entre os dedos até tampar por completo o piscar hipnotizante do neon e voltar a rotina banal dos ajuizados.

Beijos no coração
Louise



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Segunda-feira, Novembro 07, 2005



AUSÊNCIA

Viu a nuvem negra baixar na cabeça e ficou imóvel. Fechou os olhos com o sangue ainda escorrendo das narinas, suspirou forte, apertou o exame no punho, soltou o papel amassado, banhou-se nos pingos de chuva e sorriu um riso desesperado de quem não sabia mais rir. "Ah, se ao menos eu tivesse vivido um final feliz" suspirou em nostalgia. "Seria tudo tão mais fácil agora. Poderia até ser frágil e me deixar prender num abraço amoroso de algum cúmplice qualquer." Não havia cúmplice, nem amores, nem sobra de migalhas afetivas. Não havia nada além do oco e profundo vazio latejando o espaço não preenchido, fagulha de brasa ardendo igual punhal.

E de repende ocorreu que a vida é real e a mesma crueldade que aprissiona os corações falidos, bane deles as algemas disfarçadas e quando a solidão se instala é praga corroendo os destinos.

Limpou o sangue escorrido, refez a maquiagem estragada e abafou a dor no peito. Largou na chuva o segredo e se trancou em Paris porque ali a solidão não tinha espaço e ela talvez pudesse morrer feliz, ausente da dor de não viver um sonho de amor.

Beijo no coração
Louise

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Sexta-feira, Setembro 30, 2005



MADRUGADA

O sotaque do mundo rasga o frio relaxando a madrugada num sussurro de loucura.

Um mantra, manso, calmo, tranqüilo, deliciosamente sedutor invadindo o imaginário e transportando meus pensamentos quilômetros de distância daqui.

Emudeço. Respiro. Suspiro. Duelo entre a razão e o impulso travando sílabas e vogais dentro da garganta. Transpiro. Exito. E o veludo que atravessa o fio telefônico amolece meu corpo transportando sensações embaixo do edredom. Prossigo deixando minha voz ser engolida no meio da noite por um homem com jeito de menino, habilidoso na arte de seduzir.

Raras pessoas surpreendem minha fala com a ausência dela.

Ao meu modo, te sinto e admito: Te Quero e perto!

Madrugadas dentro de mim.


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Sábado, Setembro 17, 2005



SÃO PAULO

A cidade amanheceu nebulosa com uma fresta de sol pendendo das nuvens e um sorriso bregeiro fugindo dos lábios. O rouxinol estava livre e a conjunção de vênus no céu propiciava o desvairio na paulicéia. Era permitido ser feliz naqueles dias e dessa vez, além do passado vivo, poderia ser que uma entrega especial vibrasse seu celular.

Bastava um único movimento de poucos dígitos e a essência da curiosidade estaria desarmada entre risos e olhares, mas as mãos se perderam em caixotes de mudança e o tempo escorregou dos dedos num átimo de segundo imperceptível ao relógio do inconsciente.

Enquanto a lua muda na velocidade da luz e as marés esvaziam as torrentes do mundo, a oportunidade evapora, lépida e rasteira, deixando no vento um gosto de tempo que não volta atrás, impregnado de um sabor que talvez ele nunca conheça.

Beijo no Coração
Louise

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Sexta-feira, Setembro 02, 2005



TIGRESA

- Seu jeito me assusta. - diz sorrindo.
- Não mordo! - brinca pensando que ele também está.
- Falo sério! - e um olhar de soslaio escapa da vista dela. - Esse jeito manso de tigresa querendo leite, pronta para arrancar o braço do primeiro que te negar o pote me apavora. A perspicácia da sua inteligência me arrepia, Menina!
- Medo? De mim? - e uma gargalhada sai incrédula. "tão educada e singela e provoco medo?!"
- Esse sorriso livre de máscaras me desconserta e não sei como lidar com a vulnerabilidade que teu corpo me provoca. Fico tenso, teso, ah ..sei lá...fico assim como você está vendo! - chacoalha os braços sem direção.
- E eu lisonjeada pq estou mais para comercial Dove do que para Gisele Bundchen!
- Como resistir a esse humor felino? Me desconcentra o rumo e desorienta os princípios de macho, sabia? - afaga o rosto dela entre as mãos. - Cansei de aventuras, quero a casualidade dos compromissos formais. Quero você inteira para mim sem essa névoa de mistério no olhar.

A tigresa se agita. Pula a jaula sem permissão e no instante seguinte está sentada com as garras afiadas na jugular dele.

- Aprisionar-me é tão fácil...se você entendesse além da pele, saberia que as algemas estão disponíveis ao primeiro que conseguir enxergá-las.
- Ensina-me? Te quero tanto ....
- Não posso...agora a tigresa vai jantar! - E beija a boca para calar as insanidades sem que ele perceba que medo maior tem ela dele.

Beijo no coração
Louise

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Sexta-feira, Agosto 19, 2005



RECOMEÇO

Acho que o tempo se encarregou de exclamar pontos finais em nossas reticências e de repente perdeu o sentido essa transparência incompreendida e mal traduzida em estória de amor.

Alquimia. Cumplicidade bandida de ter sede de vida e afagar em amasso os estragos da saudade. Intensidade. Liberdade de ser quem se é, ausente de receios, cobranças ou promessas de entrega em datas vencidas.

Espírito rebelde que prende e domina, traduzindo coragem ao que só eu sei ser covardia. Insanidade. Jeito torto e alegre de viver a vida sem planos de sol na manhã.

Meu instante de ser feliz é o segundo passado dentro de cada hora futura!

Beijo no coração
Louise


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Terça-feira, Agosto 02, 2005



MAYBE

Não conheço teu rosto, gestos ou traços. Nunca falamos sobre gostos, texturas ou aromas. Nada além das linhas que despertam o imaginário alheio e vagam salientes por órbitas sensoriais.

Trilhas e passos giram apressados desalinhando os trópicos de nossos fusos capitais.

Acho admirável teu andar sem pretensão de destino, partida ou chegada. Encanta essa liberdade escolhida de não saber a próxima parada e voar sem ter asas por onde o vento te soprar.

Pode ser que um dia teu charme desarme minha covardia e eu encare o risco de revelar meus olhos além da ortografia marginal, mas pode ser que eu mesma mate o rouxinol com as mãos e silencie o canto raro por medo de desafinar.

Vai saber que lua me acordará ou que manhã adormecerá essa curiosidade mútua de explorar afinidades carimbadas em passaportes reais.

Beijo no coração
Louise

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Terça-feira, Julho 26, 2005



FLERTE

Vinte e um. Não. Talvez vinte e cinco no máximo. Pensa enquanto radiografa os gestos e escapa o pensamento por assuntos alheios ao que ele diz. Mais novo com certeza. Freia o impulso do flerte desviando o olhar em busca de um foco que traga seus pés de volta ao chão.

Preconceito algum de idade, apenas susto seguido de perplexidade pela naturalidade com que ele provoca seu riso infantil. Esse, trancado no lacre dos dentes, que costumava ser tão rotineiro em épocas distantes e que ultimamente anda submisso as imposições urbanas do cansaço materialista.

O olhar busca referências de onde teria perdido seu riso-menina. Tantas vezes ouviu dizer "encantado" e agora a sua frente tinha um menino em posição de caça, desarmado, despretenciosamente charmoso a fazer malabarismos com sua imaginação sem que lembrasse um feitiço qualquer para encantá-lo.

O sotaque argentino cala tudo a sua volta e as retinas afundam no chão desconfortáveis pelos pensamentos levianos que disfarçam em sedução a vontade de colar a boca na perfeição daqueles lábios, maliciosamente desenhados para encaixar o fôlego num beijo seu.

Vinte e nove é a idade certa. E ele já não parece mais tão rapazola para um joguinho de adultos! rs

Beijo no coração
Louise

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Quarta-feira, Julho 20, 2005



INVERNO

Detesto o frio. Não esse que congela os alicerces da chuva e corre roxo gelando artérias do lado de fora, mas o que me quebra a fragilidade da ternura e faz meu riso ficar palidamente racional.

Destesto o frio e a frieza das relações intocadas, das intermináveis noites sem tradução de latim e esse chuvisco que paira na comunicação dos temporais entre nossos hemisférios.

Não é a distância o quê me congela, mas a ausência do teu calor humano nos meus dias chuvosos a espantar a neblina para cima das nuvens. Me cega essa soilidão de torrentes afogando meus medos sem apreço pelo meu desespero de mulher.

As mãos úmidas escorregam das tuas e pouco a pouco o fio que me agarra em teus dedos se quebra facilmente frágil e parte em pedaços as crenças do meu coração. Difícil acreditar em raios de sol derretendo esse gelo que insiste em se instalar em você. Complicado apostar outra vez em vícios que já vivi e decidi não mais querer.

Então me deixa ir ......

A chuva há de lavar as lágrimas até que o gelo congele o sofrimento, e a primavera vai derreter esse inverno que me fere toda vez que te vejo chorar por mim.


Beijo no coração
Louise

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Segunda-feira, Julho 04, 2005



CRÔNICA DA SAUDADE

Saudade é daqueles sentimentos que não adianta ninguém tentar consolar ou dizer que tudo vai passar porque só quem tá sentindo sabe a eternidade das horas até ela sossegar no peito. Acho dos mais cruéis sentimentos pq fica por anos guardada e basta um simples olhar em algo que nos remeta a lembrança para invadir a vida feito a "dona do pedaço" e alimentar o presente de um passado atemporal .

Não tem remédio que cure saudade . Não tem receita p/fazer parar de doer a falta de quem não temos conosco . Não existe mágica p/desaparecer a saudade, mas existe vida apesar da saudade, existe certeza de que outras saudades virão, existe brilho de luar colorindo as noites de verão e sorriso de criança encantando os dias sem graça.
Existe algo maior do que a saudade chamado amor próprio e ele, somente ele, é soberando p/acalentar nossas culpas e acalmar a desilusão de nós mesmos.

É preciso sabedoria p/perceber que a saudade sufoca quando a trancamos no quarto das lamentações e mais do que isso, é preciso coragem para deixá-la seguir seu curso e virar lembrança embrulhada de papel memória.

Beijo no coração
Louise

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Terça-feira, Junho 28, 2005



CLASSIFICADOS

Quero um amor pra namorar. Desses que a gente perde o fôlego só de aproximar os lábios e deixa o coração disparado de suspiros irracionais.

Não precisa dotes físicos extraordinários, apenas a exigência de uma alma leve, que levite o brilho no riso do olhar.

Fundamental saber sonhar, ainda que sonhos bobos e nem tão eróticos, é preciso sonhar à cores porque preto e branco com imagem chuviscando ou saindo do ar não dá! E eu muito menos dou!

Quero um ser inconseqüentemente atrevido, sem pavios a invadir meus dias e virar do avesso as noites de capricho. Alguém para acalmar a fera e domar a felina que arranha dentro de mim por medo de se enjaular.

Quero a entrega voluntária atirada na direção do meu peito feito flecha de calibre 22 até eu perder o chão, o prumo, desviar o rumo, e sair da razão.

Pausa.Palpitação.Abraço. Entrelaços.

Quero mesmo é a intensidade de todo sentimento chamado paixão.

Se alguém souber a fonte ...me conte p/eu ir buscar!

Beijo no coração
Louise

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Terça-feira, Junho 21, 2005



TPM

Uma caixa preta. Seria ideal se pudesse decepar a cabeça do pescoço e guardar nela os pensamentos tristes. Guardar não. Lacrar com cadeados chumbados e jogar as chaves ao mar na boca de algum tubarão "impescável". Talvez assim um sorriso tímido voltasse a rodar bolsinha no meio dos meus lábios, dando pinta para a primeira felicidade que passasse me levar junto antes que eu lacre a mim mesma dentro dessa maldita caixa chamada TPM sentimental.

E eu que pensei não sofrer desse mal, agora fico aqui na dúvida se essa angústia que me aperta o ventre é cólica ou se essa lágrima que escorre involuntária é maresia ocular.

Na próxima encarcanação quero vir homem....mas sem pelos no rosto, que fique claro isso!

Beijo no coração
Louise

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Quinta-feira, Junho 09, 2005



ROSA AMARELA

Todo 12 de junho era a mesma coisa. A menina amanhecia com o botão de rosa amarela delicadamente deixado ao lado da cama. Nenhum bilhete, cartão ou pista de como a tal flor havia brotado, e em sua imaginação vagava a idéia de um príncipe encantado enamorado por ela.

A pureza do gesto era de uma poesia tão singela que a curiosidade pelo autor ficava absorvida na magia da surpresa, e tudo que importava não eram nomes ou identidades e sim a beleza da flor acordando ao lado dela e preenchendo de amor seu pequenino coração.

Então quando o Dia dos Namorados chega, fecho os olhos, respiro o cheiro dos botões da minha infância e aspiro o carinho contido em cada pétala deixada por 25 anos na minha cabeceira.

Hoje, a ausência daquele que foi meu maior admirador aperta a saudade, mareja o olhar e na memória daqueles dias revivo certezas abraçada em lembranças.

Mestre Cartola que me perdoe, mas desde cedo ouço as rosas dizerem que os amores sinceros, incondicionalmente eternos e sentimentais, tempo algum pode amarelar. Por isso sei que no próximo domingo, não importa aonde esteja, uma flor amanhecerá no meu travesseiro e uma voz escondida vai acordar meu coração.

Eu sei que vou te amar ...por toda minha vida eu vou te amar .....


Beijo no coração
Louise

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Segunda-feira, Junho 06, 2005



DIFERENÇAS

Nasci rebelde de parto e de mãe. Não coube espaço para incoformismos desde o primeiro sopro. Ingeri vida na veia e me viciei ainda novinha.Por isso essa intolerância, essa atitude marcada e questionadora, esse jeito atropelador de olhar o tempo e correr na frente de seus ponteiros para abraçar o mundo.

Cresci com ânsia de engolir o vento e aprendi cedo a cuspir no fogo para me defender. Um furacão. Desses que quando passa, arrasta para longe as poeiras engessadas e enche de movimento o marasmo dos santos, para espanto da retidão!

Ele queria um anjo. Adestrado à quietude das águas e ao som do horizonte. Sofrimento óbvio, lacrado nas entrelinhas das teimosias taurinas.

Pedi para embarcar comigo num vôo qualquer tantas vezes quanto ele tentou me fazer ouvir o silêncio, mas não podemos mudar a natureza de cada um, e na vida real a praticidade das relações está nas afinidades afiadas e não nas diferenças rasgadas e escancaradamente enraizadas.

Bati asas num domingo frio de primavera. O som do silêncio aprisionava meus sentidos, e aos poucos a palidez deixou meu riso apático. E o vôo que tantas vezes pedi que fizesse comigo, ficou ali, congelado no sofrimento inerte, olhar estático me vendo sumir, mudo, feito o horizonte que nunca consegui escutar.

Então quando me dizem que os opostos se atraem penso que isso só funciona na física, porque na química (pelo menos na sentimenal) é preciso diminuir diferenças para sair faísca.

Beijo no coração
Louise

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Quarta-feira, Junho 01, 2005



ELOS

As horas vão embora, o sono chega, a lua cai mansa feito brisa e enquanto a agonia me consome, lembro das noites que chorei prevendo esse dia, quando a distância nos apagaria a estória e romperia o elo nos fazendo estranhos. Ainda posso ver a sutileza da sua partida escondida no afastamento gradativo para não me fazer sofrer. Como se isso doesse menos na alma!

As vezes gosto de pensar que foi por covardia que nunca pontuamos explicitamente o final da estória e quando penso isso não é por romance ou piedade ao meu coração, mas por puro egoísmo de manter vivo em mim um sentimento bom de um tempo aonde fui a mais feliz das mulheres.

Apago a luz sem fazer barulho e deixo o sono alcançar seu ritmo lento para escurecer mais rápido e esquecer que hoje, por instinto, achei melhor fingir não lembrar do seu aniversário.

Mas a borracha sentimental é impiedosa e não apaga tão facilmente do calendário íntimo as datas de quem ainda quero bem.

Beijo no coração
Louise

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Terça-feira, Maio 24, 2005



VOAR

A onde era gigante. Marola perto de Tsunamis, mas ela nem ligava. Entrava e saia com uma sutileza cotidiana incapaz de afundar a alma. Por dentro, engolia as lágrimas cada vez que tomava um caldo e respirava fundo para não se deixar afogar.

Quem passava na praia gostava de ver a briga travada, a persistência insistida, a teimosia abafada da garota e do mar. Era tão óbvio, tão lógico e explícito o vencedor, que talvez por isso alguns poucos vibrassem por ela.

Então um dia cansou de sonhar, de querer construir barcos que rasgassem as ondas para espiar o lado de lá e cedeu a força das marés sossegando o assento e esperando que alguém cruzasse a fronteira para apresentar um peixe novinho que não podia pescar. E o mar serenou, e tudo ficou sem graça, e o povoado perdeu o riso, e sua vida perdeu o prumo e seguiu medíocre igual a de todos que não sabiam nadar.

Poseidon bateu o tridente com raiva e disse :

- Sonhar é para tolos que acreditam no inatingível. Espertos são os que têm certeza de conseguir o impossível!

No instante seguinte, ela mergulhava. Pés embrulhados de maresia, sorriso corajoso de medo, certeza banhada de sal intuitivamente guiando suas braçadas no ar.

Desde então ela acredita que pode tudo, até mesmo voar! E não é que dia desses ela tava saltando da Pedra da Gávea ?!

Beijo no coração
Louise

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Segunda-feira, Maio 23, 2005



REALEZA

O olhar estava distante, perdido entre as pontes que a levavam para longe de seu reinado. O casamento perfeito, desmoronava um pedacinho cada dia sem perceber que encolhida na fresta de sua alma, uma sombra de mulher triste se apoderava da felicidade que tanto sacrifício havia feito para erguer.

Juntos enfrentaram dragões no inferno e agora que tinham o tão esperado pedacinho de gente bagunçando as madrugadas sonolentas, não sabiam mais reconhecer os próprios corpos em olhares nus. O casamento de dez anos beirava um colapso silencioso. Ela não era mais ela. Envolta por uma capa gordurosa,trancava sua juventude apoiando-se na certeza dos juramentos de amor eterno.Ele continuava ele. Bonito e agora iluminado pela dádiva de ser pai, queria voar e gritar aos quatro mundos sua felicidade,mas ela só queria dormir, e descansar, e acordar cansada e ser mãe, esquecendo-se de ser mulher . Não tivesse aberto os olhos a tempo e arrumado forças para resgatar sua majestade ,hoje o pequeno príncipe poderia ser confundido fácil como bastardo de uma serviçal qualquer, herdeiro de um castelo sem rei.

A materniade é uma escolha, uma opção, um pacote de árduos trabalhos e incontáveis recompensas que ninguém pode prever como será, muito menos eu que não sou mãe, mas p/mim não basta gerar, é preciso alimentar de sonhos encantados a família real, e isso só é possível quando os protagonistas assumem seus verdadeiros papéis sem trocar os personagens no meio da estória .

Beijo no coração
Louise

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Abra o coração:

Segunda-feira, Maio 16, 2005



RÓTULOS

35 anos, bonita , sofisticada, poliglota, viajada, inteligente e dona de uma vida financeira invejável, Natasha é quase apontada na rua aonde vive como uma aberração da natureza pelo simples fato de não ter um marido a tira-colo. Se a opção de estar sozinha é dela e se isso a faz feliz, pouco importa, ou melhor não interessa porque o fato é que ela não tem o título de mulher casada .

Pessoas podem e vivem sozinhas por opção, escolha e nem por isso são tristes ou isoladas do mundo. Casamento não é garantia de felicidade eterna e por isso não deveria ser cobrado como único meio de ser feliz. Essa ilusão de que o conto de fadas acontece apenas para quem encontra o príncipe encantado é cruel, até porque hoje em dia o mundo é de sapos e lagartos. Então me irrita a alma saber que existem culturas que só valorizam as mulheres cuja condição social passou pelo altar da igreja antes de chegar em casa.

Lógico que ter um cobertor de orelha no frio é maravilhoso, que ter alguém para dividir as angústias é indescritível, mas saber viver na própria companhia sem as lamúrias de rejeição é fantástico também. Aproveitar o tempo sozinho é mágico quando feito com prazer e um aprendizado e tanto quando exercitado sem neuroses.

Começo a amadurecer a idéia de andar com uma cópia da minha certidão de divórcio na carteira para provar que felicidade independe dos rótulos sociais que teimam em colocar na gente !

Beijo no coração
Louise

:: Suspirado por Louise ::

Abra o coração:

Quinta-feira, Maio 05, 2005



Olá Crianças !

O sumiço é porque estou do outro lado do mundo ,numa terra aonde gregos e troianos hoje convivem amistosamente junto com deuses e mortais. Semana que vem estou de volta, para desespero da minha bagunça afetiva que continua uma ingógnita sentimental .


ENTRELINHAS

Comunicação. A chave de todas as questões indissolúveis, o elo que placidamente dissolve as rusgas da imaginação e pontua com símbolos finais os mistérios levianos da nossa equivocada realidade.

Difícil e árduo trabalho o de se fazer entender. Difícil e perigosa tarefa a de verbalizar emoções, porque são múltiplas as facetas da interpretação e dependem tanto da lua quanto da entonação auditiva de quem cala.

Talvez seja essa babel de letrinhas, ditas ou escritas, o que nos faz seres únicos porque a sintonia das palavras vai muito além do que podemos soletrar e são os verbos olhados e muitas vezes calados os que escrevem diariamente as verdadeiras estórias de amor, e quando isso acontece, não é preciso dizer nada .

Me pergunto por que raios homens e mulheres não nascem com um decodificador humano para evitar as entrelinhas silenciosas . Fica decidido então que todas as pessoas falarão uma única língua, a que fala a voz do coração e quem não quiser ouvir que tampe os ouvidos ou coloque um cotonete neles antes de sair de casa!


Beijos no coração de vcs !


:: Suspirado por Louise ::

Abra o coração:

.+. NÃO COPIE .+.

TODOS OS TEXTOS E DIREITOS AUTORAIS DOS MESMOS PERTENCEM À LOUISE !

.+. PERFIL .+.

Nome: Louise
Idade: Trinta e poucos
Lugar: Pelo mundo

Eu adoro: Beijar na boca e ser feliz !

Eu detesto: Dias de solidão

.+. GOSTO DE LER .+.

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Aos 4 ventos
Cartas para ela
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Expressões letradas
Femea no Cio
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